
A FÚRIA EM ESTADO PURO
Quando se juntam, deixam de ser seis músicos e tornam‑se uma entidade única:
A Fúria do Açúcar.
Um organismo colorido, energético e imprevisível, movido a ritmo, humor e pastilhas metafóricas.
A Retomada da Pastilha é o renascimento deste universo — mais vibrante, mais doce e mais explosivo do que nunca.



LARANJA - JOÃO MELO
Prólogo: o lema.
"Com a verdade m'enganas" (ou o contrário, sabe-se lá) é a única verdade inquestionável na carreira de João Melo, um músico, compositor, e produtor que entrara de forma ingénua no music business, e virou um agente duplo cuja missão é expor, com um sorriso irónico, o absurdo de todo o sistema, quiçá da vida.
Capítulo 1: a aprendizagem do engano.
A sua formação foi um percurso de quase-lá: 4 anos de aulas particulares de piano clássico, paródias em bares (a escola do feed-back imediato), bandas de rhythm'n'blues e rock (o laboratório do groove), e dois anos em Londres a cantar no circuito de clubes com uma banda pop que teimosamente se recusou a ser o que esperavam que fosse. Foi aí que aprendeu a regra de ouro: para enganar os outros, primeiro é preciso saber como gostam de ser enganados.
Capítulo 2: o golpe.
O regresso a Portugal foi marcado por um desplante histórico: substituir Paulo Gonzo na Go Graal Blues Band. Mas o grande golpe viria em 1991: juntando-se a dois atores (porquê começar com lógica?), fundou “A Fúria do Açúcar”. Em 1993 talvez seguindo o exemplo de Peter Gabriel, despiu-se de encenações e voltou ao básico, rodeando-se apenas de músicos – o primeiro grande "engano". Conseguiu convencer músicos de extraordinária competência de que aquela mistura de irreverência, crítica social e pop-rock era um projeto sério. Seria?
Capítulo 3: o engano em massa e a farsa do sucesso.
Em 1996 aplicou o seu método a nível industrial: conseguiu enganar uma editora discográfica de modo a divulgar os seus "disparates". Como efeito dominó, esses disparates enganaram o público, transformando-se em sucessos. Tinha descoberto a fórmula: o público gosta de ser enganado desde que o engano lhes “diga algo”, e venha bem embrulhado, por exemplo com roupa reciclada mas aparência de nova e exclusiva. Nota: é fundamental ser reciclada, ninguém aceita sem dor uma novidade absoluta, e as editoras não têm paciência para esperar por resultados. A incongruência entre o que ele é e o que o mercado esperava que fosse, levou-o a refugiar-se num alter-ego, tornando-se num avatar de si próprio.
Capítulo 4: a filosofia do “nada a sério”, e a dádiva do efémero.
A música que todos chamamos de “pop-rock”, alguns musicólogos apelidam-na de “variedades”, e João Melo vê-a assim, como entretenimento, digno mas efémero, um castelo de areia na maré da História, onde daqui a 50 anos um idiota qualquer venderá mais e as novas gerações dirão que não compreendem o fascínio dos velhos pelas bandas do passado. Supõe que daqui a 100 anos restarão os mesmos de sempre, por exemplo, Bach, Mozart, Beethoven, ou seja, eruditos, e nem que fosse só por isso nunca se conseguiria levar a sério. Julga que os artistas que caem na armadilha do ego e se acham deuses são tolos, enganam-se a eles próprios, tal como o público gosta de ser enganado. E os que chegam a aceder ao campo quântico onde tudo o que foi, está a ser, e será criado já existe, são especialmente dignos de dó quando retiram de lá um sol, e chamam a si a autoria da mensagem, confundindo-a com o mensageiro. Mas calma, a maior parte da fauna do music business nem chega a aceder ao campo, são arranjadores e vendedores de um produto com sons e palavras que dura enquanto não surge um novo mais atraente. Esses, temos pena, têm a profissão em risco pela IA, que ironia final…
Capítulo 5: a única audiência imune ao engano: as crianças.
Tendo-se mantido a compor e produzir música para teatro, cinema e televisão, residiu nesta fase a sua viragem mais profunda. Percebendo que as crianças são genuínas artistas criadoras - acedem naturalmente ao tal campo quântico - dedicou-se de alma e coração à música infantil. Foi diretor musical d'A Família Galaró, compositor, adaptador, e produtor de vários conteúdos nesta área, chegando, através de um dos CDs das Winx, a alcançar o pináculo comercial em Portugal, e porque não acrescentar, na Via Láctea: o número 1 do top nacional de vendas. No entanto a sua maior glória foi fazer crianças (e pais) acreditarem que aquelas músicas eram pura magia. E eram.
Capítulo 6: a saída de cena.
Quando a indústria infantil mudou de ideologia, decidindo trocar a magia por um manual de como criar consumidores adolescentes, João Melo fez a única coisa digna: recusou-se a ser cúmplice. Preferiu regressar ao território pop que não acarreta qualquer responsabilidade, onde a música é o que é, uma pastilha contra a angústia da vida. Já diziam os Rolling Stones “it’s just rock’roll but I like it”. Eis a razão para a retomada da pastilha.
Epílogo: o legado do ilusionista honesto (ou traidor da classe).
João Melo não é um criador no sentido romântico, é um observador, um pensador crítico, um catalisador, um conciliador de opostos, um ilusionista que nos mostra os truques todos. Enganou bons músicos para criarem algo real, enganou editoras para lançar algo verdadeiro, enganou o público para o fazer pensar e ao mesmo tempo divertir-se, dedicou-se ao único público que não consegue enganar, entregando-lhe a única coisa que vale a pena: um pouco de genuíno sublime. Ele é, portanto, o paradoxo final: o homem que construiu uma carreira sobre o domínio da magia e da palavra, da ambiguidade entre o real e o ilusório, do saber e da astúcia, só para no fim nos revelar que a única maneira de fazer algo durar (nem que seja por três minutos e meio de uma canção) é sendo absolutamente verdadeiro na sua própria mentira.
VERMELHO - RUCA REBORDÃO
Ruca Rebordão: o homem que a Terra (e todos os artistas nela) decidiram adoptar como seu percussionista pessoal.
Prólogo: a primeira vítima (ou o primeiro conquistador).
No ano de 1993, enquanto a Fúria do Açúcar mudava de sketches musicados para música encenada, precisava de um alicerce; alguém que desse solidez rítmica ao caos, seriedade à comédia, e pulso ao disparate. Encontraram Ruca Rebordão. Ou, como a narrativa alternativa (e mais provável) defende: foi Ruca Rebordão, num ato de clemência, que se dignou a cair na "esparrela" deles. Afinal, qual outro percussionista no seu perfeito juízo teria a audácia de tentar acompanhar aquele projecto? Ele aceitou. E, ao fazê-lo, tornou-se a primeira peça de um puzzle ainda incompleto: afinal o que é a Fúria do Açúcar? Nem as editoras que venderam a banda sabiam…
Capítulo 1: o catálogo humano (ou a lista que parou o tempo).
Diz-se que Ruca gravou mais de 200 álbuns. Diz-se que a lista dos seus colaboradores é tão longa que, se a lermos, entraremos num loop espaço-temporal. É o eixo terráqueo da música portuguesa, mas em vez de vinte e três graus de inclinação, ele está a um aperto de mão de toda a cadeia alimentar musical dos oceanos. A prova?
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Do jazz ao mundo: Sadao Watanabe, Gil Goldstein, Ivan Lins.
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Do fado à canção: Madredeus, Teresa Salgueiro, Paulo de Carvalho, Fafá de Belém, Sérgio Godinho, Vitorino.
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Do rock à surpresa total: Rui Veloso, Moonspell (sim, ele provavelmente tocou um gongo numa balada gótica e ninguém notou a diferença), JP Simões, e Couple Coffee.
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Da MPB ao Semba e morna: Martinho da Vila, Toquinho, Nancy Vieira.
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E uma miscelânea gloriosa: Silvana Peres, António Chainho, Joana Amendoeira... e Rita&OsUsadosDeQualidade, porque a lista precisa de um toque de genialidade nominal.
Resumindo: se um artista respirou entre Lisboa, Rio, Nova Iorque ou Tóquio nas últimas três décadas, há uma probabilidade estatística assustadora de o Ruca ter gravado um shaker ou um solo de congas no seu disco.
Capítulo 2: os projetos próprios (onde o mestre brinca).
Mas Ruca não é apenas um braço (ou dois, ou quatro) emprestado. Ele é um criador de universos sonoros paralelos:
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NGoma Makamba: co-fundou este grupo de percussões. Imagina-se uma sala cheia de tambores, e o Ruca no centro, a ditar a lei do groove.
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Valdez e as Piranhas Douradas: co-fundado com Pedro Wilson. A auto-definição é obra-prima: "pop-rock-chunga de cariz burlesco e cómico". Ou seja, o lado do Ruca que olha para a Fúria do Açúcar e diz: “amadores, venham daí, que eu mostro o que é chunga com classe".
Capítulo 3: o legado a solo (a alma "Mestiça Atlântica”).
Em 2025, lançou "Mestiço Atlântico". O título não é uma descrição, é um estado de ser. O álbum foi eleito um dos 20 melhores do ano pelo WMCE - World Music Charts Europe. É o culminar de uma vida a navegar entre continentes sonoros, a ser uma ponte onde outros veem mares intransponíveis. É a prova de que, depois de ter sido a coluna vertebral de meio mundo, ele próprio é um mundo completo.
Capítulo 4: a verdadeira esparrela (a teoria da conspiração).
Revejamos os factos:
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Um jovem percussionista co-fundava projetos de rock-chunga e percussão africana.
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Deixa-se "cair" na Fúria do Açúcar.
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Nos 30 anos seguintes, toca com todos os outros artistas do planeta.
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Conclusão inevitável: A Fúria do Açúcar não foi o seu grande salto. Foi o seu quartel-general, o seu centro de operações. De lá, ele infiltrou-se discretamente em todas as cenas, todos os géneros, todas as gravações. A Fúria não o capturou; ele usou-a como disfarce perfeito.
Epílogo: o ritmo do mundo.
Ruca Rebordão não é um músico de sessão, é uma força da natureza com forma humana e baquetas ou palmas das mãos. É o ritmo de fundo da música portuguesa das últimas décadas. É o elemento comum entre uma música africana, um fado de Amália revisitado, um jazz japonês e o lirismo de Rão Kyao. Ele é a prova viva de que, enquanto houver um ritmo para ser encontrado, uma ponte para ser construída, ou uma "esparrela" para cair com um sorriso nos lábios, a música estará em boas mãos. Ou melhor, em mãos incansáveis, que nunca param de criar o ritmo do mundo.
AZUL - CIRO BERTINI
Ciro Bertini: a saga quase épica do homem que tinha um piano em vez de um coração.
Capítulo 1: a origem (oitava baixa).
Num Portugal onde o fado se entrelaçava com o cheiro a maresia, um jovem de 8 anos descobriu que as teclas pretas e brancas eram um portal muito mais interessante do que o mundo exterior. Enquanto outros colecionavam cromos, Ciro colecionava conservatórios: passou pela Juventude Musical, pelos Amadores de Música, pelo Conservatório Nacional e pelo Hot Club, como um gourmet académico a provar todas as especialidades do som.
Capítulo 2: o serviço militar (marcado em compasso 4/4).
Ao invés de marchar com uma arma, marchou com um metrónomo. Cumpriu o serviço militar obrigatório na Escola Prática de Infantaria de Mafra, não como soldado, mas como músico. Diz a lenda que os exercícios de campo nunca foram tão ritmados, e que até as granadas explodiam em staccato perfeito.
Capítulo 3: o professor e o domador de teclas selvagens.
Em 2007, estabeleceu o seu quartel-general na Improviso - Academia de Música de Oeiras. Lá, há 17 anos, desempenha a nobre missão de domador de teclas selvagens e mentor de futuros maestros do caos harmónico. Paralelamente, a sua arte invadiu escolas, onde animou sessões musicais, e estúdios de dança clássica, onde acompanhou pliés e piruetas com a dignidade de um pianista que nunca deixou uma bailarina cair… musicalmente.
Capítulo 4: o herói das frentes múltiplas (e dos backstages).
Mas a verdadeira epopeia de Ciro desenrolou-se nos palcos e estúdios de gravação. Nos últimos 20 anos, tornou-se no "Homem-Aranha" da música portuguesa, aparecendo simultaneamente em vários grupos como se tivesse dons de ubiquidade. A sua lista de associados parece o índice de um almanaque da música lusófona:
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Da casa ao mundo: de Luís Portugal a Bonga, de Tito Paris a Paulo Flores.
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Do fado ao pop: de Carlos do Carmo a Anabela, de Mísia a… Fúria do Açúcar (prova definitiva da sua versatilidade psicológica).
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De intérprete a mestre dos cordões: não se limitou a tocar; arranjou, produziu, dirigiu. Foi o cérebro por trás de obras de António Chainho e o guardião da faixa de Carlos do Carmo no CD 'Um novo homem na cidade'.
Capítulo 5: o produtor e o sábio do estúdio.
Como sócio-gerente de um estúdio e editora, enfrentou o seu maior vilão: a gravação que não grava, o artista sem inspiração, o orçamento que desaparece. Sobreviveu para contar a história, e ainda achou tempo para criar jingles publicitários: se já assobiaram um anúncio de TV em Portugal, há a probabilidade de ter sido obra dele.
Capítulo final (por enquanto): o artífice de legados.
Recentemente, assumiu o desafio de orquestrar os 50 anos de carreira do guitarrista António Chainho, um projecto colossal que reuniu desde Sara Tavares a Pedro Abrunhosa, de Rui Veloso a Fernando Ribeiro (dos Moonspell, num twist glorioso). Foi o general que comandou um exército de estrelas, sem que ninguém lhe fugisse com o tom.
Epílogo: o legado.
Ciro Bertini não é um músico, é um ecossistema musical ambulante. É professor, produtor, arranjador, pianista, director musical e, suspeita-se, tem um clone escondido num estúdio qualquer a terminar uma mistura. O seu currículo não é uma lista de trabalhos, é a constituição de uma vida dedicada a fazer Portugal soar melhor, uma nota de cada vez.
AMARELO - MIGUEL CAMILO
Miguel Camilo: o arquitecto sonoro que construiu a banda sonora de Portugal (sem que ninguém desse por isso).
Prólogo: o aprendiz que virou mestre das sombras.
Algures entre Benfica e Santa Cecília, nos anos 80, um jovem aprendia os segredos da guitarra. O plano parecia simples: tocar. Mas Miguel Camilo, movido por uma curiosidade insaciável, decidiu aprender tudo. Não apenas os acordes, mas o que os move; não apenas o som, mas o sistema que o produz. Esta seria a maior operação furtiva da música portuguesa. Enquanto os outros iam para os palcos, ele infiltrava-se nos estúdios. Enquanto os outros almejavam o spotlight, ele dominava a consola. O seu objetivo? Não ser o rosto, mas a coluna vertebral, o sistema nervoso, o cérebro por trás de tudo.
Capítulo 1: a dupla vida do guitarrista (ou: o homem que estava em todo o lado).
A evidência da sua infiltração é pública, mas ninguém ligou os pontos:
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No palco: Começou nos covers (com os grupos Paisagem, e Splash), treinando o ouvido para qualquer género. Depois, a porta de entrada perfeita: a Fúria do Açúcar (1998-2008). Foi a sua cobertura. De dentro do caos organizado da Fúria, ramificou-se: acompanhou a força lírica de Rita Guerra, a soul de Beto, o pop de Anselmo Ralph, a canção de Rui Drumond. Até na Finlândia com os MERRY C. esteve. E, claro, nos ecrãs de "Ídolos" e "Uma Canção Para Ti", era a sua mão (esquerda e direita) que guiava os aspirantes a astros, como um puppet master benigno.
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No estúdio: aqui, a sua rede alargava-se de forma alarmante; a lista de sessões é um who's who do pop, soul e world music nacional: de Mastik Soul a Dona Rosa, de Mónica Sintra a Rui Bandeira. Ele era o fio condutor, o selo de qualidade oculto. Se a canção tinha um groove impecável ou um arranjo brilhante, havia altas probabilidades de os dedos ou os ouvidos de Camilo lá terem estado.
Capítulo 2: a ascensão ao comando central (o produtor).
Mas tocar e gravar não eram suficientes, Miguel Camilo precisava de controlar todo o espectro. E assim, em 2002, inicia a sua operação mais audaciosa: a produção.
A sua lista de produção é um mapa de uma cena alternativa e pop vibrante, que ele próprio ajudou a erguer:
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Da energia rock dos Siddartha à de Christina Q..
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Do universo íntimo de Dona Rosa ao projeto de Gonçalo Salgueiro.
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Da potência garage de Her Name Was Fire ao fantástico rock alternativo dos Stereophobia.
O prémio de "Best Producer" nos Angola Music Awards (2015) pelo trabalho com os MVULA não foi um acidente. Foi o reconhecimento público de um shadow leader que já comandava as operações há anos.
Capítulo 3: o maestro dos mundos paralelos (teatro & TV)
Com o poder da produção consolidado, Camilo voltou os seus talentos para narrativas maiores. Filipe La Féria, o mestre do teatro musical português, recrutou-o. O que se seguiu foi uma década a construir, musicalmente, os universos fantásticos de Portugal:
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Deu ritmo à floresta de Robin dos Bosques.
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Compôs a melancolia subaquática de A Pequena Sereia.
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Injectou energia circense em A Volta ao Mundo em 80 Minutos.
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Criou o esplendor árabe de Aladino e o gelo cintilante de A Rainha do Gelo.
Ele não era apenas o director musical; era o world-builder sonoro. Enquanto as crianças vibravam com o Tarzan ou a Cinderela, eram as suas cordas, os seus arranjos, a sua produção que as transportavam. Paralelamente, na TV, desde galas a programas de entretenimento, era ele que garantia que, nos bastidores, tudo soava a broadcast.
Capítulo 4: a teoria da conspiração (revelada).
Conectemos os pontos:
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Fase 1: aprendizagem total. Absorve tudo, de guitarra a engenharia de som.
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Fase 2: infiltração. Usa a Fúria do Açúcar e as sessões de TV como cabeça-de-ponte para aceder a toda a indústria.
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Fase 3: aquisição. Assume o controlo criativo como produtor, moldando o som de uma nova geração de artistas.
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Fase 4: domínio. Constrói, ele próprio, os mundos musicais que enchem os maiores teatros do país durante anos.
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Conclusão: Miguel Camilo nunca quis ser apenas um guitarrista; ele arquitetou meticulosamente uma carreira para se tornar o arquiteto sonoro não-oficial de Portugal. É o produtor por trás dos artistas, o director por trás dos musicais, o músico de sessão por trás dos sucessos. É a peça que, uma vez colocada, faz todo o puzzle musical português fazer sentido.
Epílogo: o cérebro com braços.
Miguel Camilo é a antítese do mito do artista solitário. Ele é o hub, o construtor de sistemas, o maestro da máquina. A sua biografia não é uma linha, mas um diagrama de fluxo complexo e elegante, onde cada seta — tocar, produzir, dirigir, arranjar — aponta para o centro: um homem com uma guitarra, uns auscultadores e um plano mestre. Enquanto houver uma canção para ser polida, um musical para ser montado, ou um acorde perfeito para ser encontrado, podem ter a certeza: Miguel Camilo já lá está, há três fases de operação à vossa frente, a garantir que tudo soa exactamente como deve ser.
VERDE - MAURO RAMOS
Mauro Ramos: o homem-energia que bate, escreve e decide que 24 Horas por dia é para fracos.
Prólogo: o erro (ou a sentença auto-imposta).
Há uma regra não escrita no universo musical português: se és um baterista lendário, em algum momento serás abordado pela Fúria do Açúcar. A maioria resiste. Mauro Ramos não só caiu na esparrela uma vez como, anos depois, olhou para o abismo e resolveu morar nele, integrando a banda de forma permanente. Isto não é um erro de carreira. É uma decisão existencial. É como um Nobel da Física decidir tornar-se o mestre-de-cerimónias de um circo anárquico… e adorar cada minuto.
Capítulo 1: a máquina de tempo (e de 150 concertos por ano)
A matemática é simples: 30 anos de carreira + 200 discos + uma média de 150 concertos por ano = Mauro Ramos não dorme. Dormir é, para ele, um conceito teórico que ocorre a outros humanos. Enquanto o mundo descansa, ele está num palco a "massacrar as peles" (um termo carinhoso) para:
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Ídolos do Pop/Rock: Amor Electro, Rui Veloso, Paulo Gonzo, Jorge Palma.
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Divas & Vozeirões: Mariza, Carminho, Salvador Sobral, Áurea, Simone de Oliveira.
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Do Rock Gótico ao Pop: Fernando Ribeiro (Moonspell) e Herman José (sim, a mesma pessoa pode bater para o "Opium" e para o "É tão bom fazer rir o pessoal" sem se partir ao meio).
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Um universo paralelo: Ricky Martin, Nightporter, Adelaide Ferreira, Expensive Soul, e uma lista que, se impressa em painéis solares, poderia cobrir totalmente o distrito de Beja.
A sua biografia não é um CV, é um censo musical português dos últimos 30 anos.
Capítulo 2: o endorser universal (o homem que as marcas adoram).
Ser endossado por uma marca de baterias é um feito. Ser endorser mundial de Gretsch, Taye, Sonor, Vater e Remo é prova de que as próprias fábricas reconhecem: as peles só atingem o seu verdadeiro potencial quando são golpeadas por Mauro Ramos; é como se os tambores dissessem "obrigado" a cada impacto.
Capítulo 3: o diretor musical dos “Ídolos” (e o arquitecto de carreiras).
No programa “Ídolos”, não foi apenas o baterista, foi o director musical do vencedor Filipe Pinto, gravando bateria, guitarras e coros no seu álbum. Ou seja: enquanto mantinha 149 outros concertos, ele ainda tinha tempo de orquestrar o sucesso de outra pessoa. Esta é a definição viva de "generosidade energética".
Capítulo 4: o coração dos musicais e dos bares (o dom da dualidade).
Enquanto gravava bateria para musicais de Filipe La Féria (Pinóquio, Sítio do Pica Pau Amarelo), mantinha o pulso vivo no circuito de bares com bandas de culto como XPTO, Jim Dungo, Patrícias S.A., e Vira Lata. Isto revela a sua filosofia: a música não tem hierarquia. Tanto bate num estádio para os Amor Electro como numa cave húmida para a "Funky & Soul Collective". O importante é o groove.
Capítulo 5: o compositor e o segundo Acto (a alma além da bateria).
Integrar os Amor Electro em 2017 não foi um simples emprego, foi uma fusão. Ele co-escreveu temas, compôs "a barca", e tornou-se parte do ADN criativo da banda. Mas a sua alma criativa não se contém: está a terminar o seu segundo trabalho a solo, com duetos que vão de Fernando Ribeiro (Moonspell) a Zeca Medeiros, passando por Yara Mara e João Gil. É o baterista que sai da frente do kit para se tornar no centro da canção.
Epílogo: a teoria do campo de força Mauro-Ramos.
Explicação científica para a sua carreira: Mauro Ramos não é um ser humano. É um campo de força rítmico com forma humana. Este campo manifesta-se onde quer que seja necessária energia, precisão e swing.
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Precisa-se de um pilar para uma banda de estádio? Manifesta-se.
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Precisa-se de um motor para um projecto íntimo? Manifesta-se.
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Precisa-se de um compositor para uma balada? Manifesta-se.
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Precisa-se de um amigo para uma jam session num bar às 3 da manhã? Já lá está.
A sua integração na Fúria do Açúcar não foi um "agravamento do erro”, foi o reconhecimento final de que o caos também precisa de um coração que bata com mais precisão que um relógio atómico. Ele não se juntou à banda, trouxe consigo um universo inteiro de ritmo, e deixou a Fúria morar lá dentro.
ROXO - NORTON DAIELLO
Norton Daiello: o contrabaixista que é uma entidade geopolítica e extra-temporal.
Prólogo: a origens de um fenómeno.
Diz-se que ao nascer, em Porto Alegre - Brasil, em vez de choro saiu da sua boca um walking bass perfeito em Sol maior. Criado no país onde a tristeza é proibida por estatuto (lá “tristezas não pagam dívidas"), foi enviado ao mítico Conservatório de Tatuí, a maior escola de música da América Latina, uma espécie de Hogwarts do samba-jazz, onde não se formou em um, mas em seis cursos simultâneos. Especula-se que ele tenha, na verdade, frequentado aulas 24 horas por dia, em corredores temporais paralelos.
Capítulo 1: a peregrinação norte-americana (o êxodo do groove).
Após absorver todo o conhecimento do hemisfério sul, partiu em missão de reconhecimento aos Estados Unidos. Tocar em clubes de Nova York, Boston e Los Angeles não foi uma tentativa de carreira, foi um teste de stress ao sistema nervoso central da música norte-americana. Os clubes sobreviveram, mas nunca mais foram os mesmos.
Capítulo 2: o regresso e o engodo.
De volta ao Brasil, integrou a Rio Jazz Orchestra. E então aconteceu o inexplicável: caiu no canto da sereia Lusitana. A teoria mais aceite? Ele ouviu um chamamento ao longe, percebeu que havia um ecossistema sonoro único à beira-mar plantado que carecia desesperadamente de um alicerce rítmico-harmónico de elite, e moveu-se por paixão. Ou então tinha, de facto, um parafuso a menos. A história ainda não decidiu.
Capítulo 3: a lista (ou o “quem é quem" que se tornou “quem é Norton?”).
O seu currículo não é uma lista de colaborações. É um mapa geopolítico e histórico da música lusófona (e além) dos últimos 30 anos. Ler a lista é um acto físico desgastante. Exige pausas para hidratação. É um roll call que vai do panteão brasileiro ao olímpico português:
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Os deuses brasileiros: Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Ivan Lins, Bibi Ferreira, Roberto Menescal.
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O panteão português (Séc. XX-XXI): de Mariza a Sérgio Godinho. De Jorge Palma a Fausto. De Rui Reininho a António Zambujo. De Paulo de Carvalho a Rita Redshoes. De Vitorino a Rita&OsUsadosDeQualidade (o denominador comum de todos os super-músicos, aparentemente).
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A ponte atlântica: Lura, Tito Paris, Waldemar Bastos, Eneida Marta.
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Os instrumentistas supremos: Pedro Jóia, Mário Laginha, Júlio Pereira.
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E os nomes continuam: Sara Tavares, Uxía, Zeca Medeiros... A lista é um buraco negro. Quem entra, não sai. Cansamo-nos? Ele não.
Capítulo 4: o homem por trás do som (e dos jingles).
Norton Daiello não vive só de palcos. Foi técnico de som e músico no estúdio de jingles Tapespot. Imagina-se: o homem que podia estar a gravar com Milton Nascimento, ia afinando o baixo para um jingle de um desodorizante. Essa é a sua humildade cósmica. E montou um estúdio com Guto Goffi, da banda Barão Vermelho, porque aparentemente também precisa de ser sócio em empreendimentos sonoros para passar o tempo.
Capítulo 5: os projetos próprios (onde a ubiquidade se organiza).
Fundou com Luanda Cozetti o duo Couple Coffee. Atualmente, a sua "agenda simples" inclui:
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O dito Couple Coffee.
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Fausto Bordalo Dias (um projeto que por si só exigiria uma vida).
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O Pedro Jóia Trio (exigindo precisão milimétrica).
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E, claro, Rita&OsUsadosDeQualidade (exigindo... qualidade usada?).
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Um homem comum teria quatro vidas. Norton tem quatro horários.
Epílogo: a teoria da ubiquidade confirmada.
Não, ele não tem 150 anos. A explicação científica é mais simples: Norton Daiello não é um homem, é um princípio. É o princípio da presença harmónica necessária. Sempre que, em qualquer ponto do espaço-tempo lusófono, um projecto musical atinge um limiar crítico de qualidade e precisa da coluna vertebral perfeita, o universo conspira para que Norton Daiello já lá esteja, de baixo em riste, um sorriso tranquilo no rosto, o groove já a fluir antes do primeiro acorde.
Ele não caiu no engodo da Fúria do Açúcar. A Fúria foi o portal pelo qual o Princípio Daiello se materializou definitivamente em Portugal. E desde então, tem sido o contrabaixo sobre o qual se constrói a música que importa. O resto é silêncio… de vez em quando preenchido por uma respiração ou um slap perfeito.





